O lado oculto da diversão

Agosto 31, 2007

Jogos de vídeo I – A morte da fantasia

Arquivado em: divertimentos, jogos vídeo, juventude, loucura, sedução, sociedade, violência — diversaoj @ 2:06 pm

Carlo Climati

Os jovens e o esoterismo

Lisboa, Paulinas, 2001

Excertos

Jogos de vídeo e de representação

Nada no mundo é mais inocente do que um jogo. No entanto, também através do jogo, crianças e jovens podem conhecer alguns elementos típicos do mundo do esoterismo. Isto acontece sobretudo desde que, com as novas gerações, mudou radicalmente o modo de se divertirem.

O mesmo tipo de solidão que caracteriza a «navegação» via Internet também está presente noutro tipo de actividade ligada ao computador: o uso dos jogos de vídeo, que se tem vindo a difundir cada vez mais entre os jovens de todo o mundo. Ao mesmo tempo, parece ter desaparecido a antiga cultura do pátio e da praça, lugares ao ar livre, em que as crianças praticavam jogos de grupo tradicionais, mais alegres e criativos.

O jogo de vídeo (em inglês «video game») não passa de uma mistura de sons, ruídos, músicas e imagens que bombardeiam os jovens a partir do ecrã do computador. Quem os utiliza não realiza qualquer tipo de actividade criativa. Limita-se simplesmente a aceitar aquilo que o jogo lhe propõe, pondo à prova as suas próprias capacidades. Trata-se de um desafio contínuo que a criança lança a si mesma e aos seus «inimigos», que vão surgindo no ecrã.

A morte da fantasia

Impressionou-me muito uma publicidade presente no guia de jogos de vídeo Pokémon. Manuale del perfetto allenatore. Na página 7 deste manual lê-se o seguinte convite: «Deita fora o balde… Temos um jogo mais belo», acompanhado pelas imagens de seis jogos de vídeo [1].

Este guia dos Pokémon foi vendido durante o Verão, em que as crianças costumam usar o balde e a pá para fazer castelos de areia, na praia. A publicidade convida-as a substituir o balde, símbolo de brincadeiras fantasiosas, na praia, pelos jogos de vídeo. Tudo isto é muito triste e representa a morte da criatividade.

O drama, porém, não reside apenas no adeus ao balde, ao pátio e aos castelos de areia. Existe um problema de conteúdos.

Infelizmente, também o mundo dos jogos de vídeo foi «contagiado» pelo vírus do esoterismo. Os elementos mágicos, violentos, sangrentos e de terror já constituem, actualmente, uma característica dominante deste tipo de divertimento. Com a desculpa de que «no fundo, é apenas um jogo», todas as ocasiões são boas para ultrapassar os limites do bom gosto.

Contudo, os jogos de vídeo são mais do que um simples jogo. Podem representar uma ponte muito eficaz entre a fantasia e a realidade. Sabe-o bem o Coro dos Marines do exército americano, que costuma utilizar o jogo electrónico Marine Doom para treinar os seus soldados.

Marine Doom é a versão «bélica» do popularíssimo jogo de vídeo Doom, transbordante de violência e de seres monstruosos. Os Marines transformaram-no num instrumento de exercício, substituindo os monstros pelos «soldados inimigos». Pode ser jogado por quatro soldados ao mesmo tempo, noutros tantos computadores ligados entre si. O objectivo é ensinar a deslocar-se como grupo de ataque unido, a colaborar, a escutar e a tomar decisões com rapidez [2].

O jogo de vídeo, portanto, não é apenas um jogo. Também pode transmitir mensagens e «exercitar» o jogador a realizar determinadas acções. Pode contribuir para tornar familiares alguns ambientes e para criar uma mentalidade particular.

Pensemos, por exemplo, nos velhos «flipper», que podem ser considerados os «avós» dos actuais jogos de vídeo. Quando apareceram pela primeira vez nos bares americanos, em 1942, os primeiros flipper chamavam-se «Smack the Japs» (Atinge o japonês) ou «Fire the Nazi» (Dispara contra o Nazi). Reflectiam o ambiente da guerra mundial e, através do jogo, lançavam aos jovens claras mensagens contra o «inimigo» [3].

Continuação : Um bruxo electrónico

[1] Pokémon. Manuale del perfetto allenatore, Guia não-ofical de todos os jogos do Pokémon (numero único da Play Press Publishing srl), 2000.

[2] E. ASSANTE, Giocare alla guerra Vera, in La Repubblica, 13 de Abril, 2000.

[3] V. ZAMBARDINO, E se invece fosse anche un mezzo educativo?, in La Repubblica, 13 de Abril, 1997.

 


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