O lado oculto da diversão

Agosto 31, 2007

Jogos de vídeo III – Tanto os bons como os maus

Arquivado em: divertimentos, jogos vídeo, juventude, loucura, sombra, violência — diversaoj @ 1:46 pm

Capítulo anterior: Um bruxo electrónico

 

Tanto os bons como os maus

 

Um dos jogos de vídeo mais sangrentos dos últimos anos é certamente Riana Rouge. A protagonista é uma bela rapariga loura que é morta das formas mais díspares. Um jornalista da revista K comentou o jogo de vídeo do modo seguinte: «Podemos dizer que a violência e a quantidade de sangue presentes no jogo são pouco impressionantes, se pensarmos que em menos de cinco minutos de jogo consegui ver pelo menos uma meia dúzia de mortes diferentes da protagonista: cada uma delas mais cruenta do que a outra. Entre cabeças decepadas, sangue que escorre por toda a parte e desintegração das vísceras, a única dificuldade está na escolha» [1].

A linguagem do jornalista de K é reveladora. Mostra-nos que a morte e o sangue, em vez de suscitar horror, se transformam em elementos «positivos» para os jovens. Depois do rock, da banda desenhada e do cinema, também os jogos de vídeo foram «contaminados» por esta tendência.

Certos jogos de vídeo parecem contribuir para um processo de habituação ao mal por parte dos jovens. As novas gerações cada vez se acostumam mais à violência, até ao ponto de esta as deixar indiferentes. Ou antes, em certos casos, as encenações de «terror» e as imagens monstruosas chegam mesmo a tornar-se instrumentos «fascinantes», utilizados para vender mais jogos de vídeo e para chamar a atenção dos jovens.

Eis como a revista The Games Machine (n.º 93, Janeiro de 1997) anuncia o jogo de vídeo Realms of the Haunting: «Confronta-te com espíritos demoníacos, animados de forma magnífica graças à tecnologia motion capture. Com mais de duas horas de vídeo full-motion, mais de vinte criaturas e demónios em 3D e 15 tipos de armas diferentes. Ficarás fascinado com o ambiente de terror e com as maquinações urdidas por um velho bruxo que, com o seu alter ego demoníaco, tenta precipitar o mundo numa nova era tenebrosa.» Mais uma vez, portanto, os cenários de «terror» são descritos como factores «positivos», capazes de fascinar e de atrair os jovens. Não é por acaso que a publicidade de Realms of the Haunting se dirige directamente ao jovem, convidando-o a confrontar-se com os espíritos demoníacos, numa «experiência lúdica absolutamente envolvente». Também o slogan que acompanha este jogo de vídeo é decididamente tenebroso: «Será que a luz pode existir… sem a escuridão?»

O facto mais assustador é que, em muitos jogos de vídeo, o bem se confunde completamente com o mal. Já não existem regras nem freios morais. O herói «bom» torna-se cruel e satânico como os seus adversários «maus», utilizando os mesmos métodos violentos e sanguinários.

Por conseguinte, o jovem que interpreta o papel de «bom» dá consigo a comportar-se como um «mau».

Já vimos que este mecanismo de confusão entre modelos positivos e negativos também caracteriza algumas séries televisivas, como Nikita e Buffy, em que as personagens se movem como os bonecos de um jogo electrónico. São «bons», mas espancam e matam os outros como se fossem perfeitos «maus».

Há ainda alguns jogos de vídeo que exigem, abertamente, que se interprete o papel de malvado. É o caso de Dungeon Keeper, passado nos subterrâneos de um castelo. Numa página publicitária deste jogo, na revista K, lê-se o seguinte: «Numa concepção absolutamente original, divertir-te-ás no papel de um cruel Carcereiro, que comanda um exército de monstros completamente submetidos aos teus caprichos. Cria o teu império subterrâneo, partindo de um buraco insignificante até chegar a uma verdadeira rede subterrânea de câmaras e corredores. Destrói todos os heróis que tentarem assaltar-te, montando armadilhas e locais de tortura onde menos esperarem e submete os habitantes dos reinos do amor e da paz ao teu império do terror.»

A página publicitária reproduz ainda algumas imagens extraídas do jogo, acompanhadas pelas frases seguintes: «Se fores o Carcereiro, poderás ter às tuas ordens muitas espécies de monstros diferentes», «Combaterás nas prisões subterrâneas para expandir o teu próprio império de criaturas malvadas», «Poderás controlar pessoalmente todos os monstros», «Possibilidade de jogar em multiplayer, incluindo o recontro de morte».

A publicidade do jogo de vídeo prossegue com uma série de convites feitos directamente ao jovem leitor: «Mata e tortura múltiplas variedades diferentes de heróis infelizes», «Aprecia a acção a partir de vários pontos de vista», «Escolhe entre vários tipos de divisões para construir o teu mundo de tortura: câmaras, corredores e sala de armas». Há também uma referência à magia negra: «Procura entre numerosos feitiços diabólicos.»

A página publicitária de Dungeon Keeper, que também representa a imagem de um monstro com rosto de diabo, termina com um slogan aterrador: «Ser mau nunca foi tão maravilhoso» [2].

No mesmo filão negativo insere-se o jogo de vídeo Grand Theft Auto, em que o jogador desempenha o papel de um malvado «pirata das estradas». Rouba automóveis, conduz a velocidades loucas e pode até atropelar os peões[3].

Continuação: A luta pela sobrevivência

  [1] «Riana Rouge» in K, Junho, 1996.

[2] Publicidade extraída da revista K, Setembro, 1997.

[3] Grand Theft Auto, in Mega Console, Junho, 1996

Carlo Climati

Os jovens e o esoterismo

Lisboa, Paulinas, 2001

Excertos adaptados

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