O lado oculto da diversão

Setembro 18, 2007

As revistas para adolescentes – Ritos mágicos

Arquivado em: divertimentos, juventude, magia, paganismo, rito, ritual, sedução, trevas — diversaoj @ 10:40 pm

Carlo Climati
Os jovens e o esoterismo
Lisboa, Paulinas, 2001
Excertos adaptados

As revistas para adolescentes

Existe um «esoterismo postal»? Existe. É o das muitas revistas que se dirigem ao público dos adolescentes. Toneladas de papel e litros de tinta são utilizados, diariamente, para falar aos jovens e transmitir mensagens nem sempre positivas. É o fenómeno das chamadas «revistas para teenagers», cheias de cor e muito vendidas.

O termo inglês teenager pode ser traduzido por «adolescente». Refere-se àquela faixa de idade compreendida, pelo menos, entre os doze e os dezassete anos. É a idade das primeiras interrogações sobre a vida, sobre o amor e sobre o próprio futuro. É um momento delicado em que os jovens aprendem a conhecer melhor o seu próprio corpo e começam a interrogar-se sobre vários aspectos da sexualidade. Mas também é a idade em que, por vezes, se experimenta um sentimento de raiva e de rebeldia frente à família e à sociedade.

As revistas para adolescentes dirigem-se a todo o tipo de público, na sua maior parte feminino, que tem um grande desejo de comunicar. No início da minha actividade de jornalista, tive ocasião de escrever para algumas dessas revistas. Foi uma experiência maravilhosa e inesquecível, que ainda hoje recordo com uma ternura imensa.

Ao ler as muitas cartas que chegavam à redacção, apercebi-me da necessidade desesperada que os jovens sentem de que alguém os escute. Trata-se, infelizmente, de um desejo muitas vezes ignorado na vida real. Nem todos os pais têm tempo ou vontade de se ocupar dos seus «filhinhos». Por essa razão, muitas rapariguinhas fazem as suas confidências aos seus «amigos correspondentes».

Os elementos fundamentais

Quais são as características mais recorrentes das revistas para adolescentes? Antes de mais, essas revistas são muito coloridas. Têm uma apresentação gráfica cativante e estão cheias de fotografias de actores, cantores, futebolistas e personagens de televisão. São os «belos» e as «belas» do momento, os ídolos «de papel» pelos quais o público se apaixona. A sua figura também é oferecida em versão «autocolante», para ser afixada nas paredes, nos diários e nas mochilas, sem contar com os inevitáveis posters, sempre presentes.

Não é por acaso que a estética e a aparência são temas recorrentes neste tipo de revistas. São frequentes os artigos que ensinam as raparigas a manter-se em forma e a parecer mais bonitas: conselhos sobre maquilhagem ou para obter um bronzeado perfeito, sugestões sobre penteados e curas de emagrecimento. Há ainda rubricas que abordam temas mais íntimos, como o amor e a sexualidade.

Outro elemento recorrente nas revistas para adolescentes é o do gadget, ou seja, a oferta associada à revista, que a torna mais atraente. Pode ir do colar à cassete de música, do lápis de maquilhagem ao anel. A revista transforma-se, assim, numa espécie de «caixinha de surpresas», em que se pode encontrar de tudo, até o esoterismo.

Temas tais como o horóscopo e a leitura das cartas são elementos típicos das revistas para adolescentes. Tenta-se, sobretudo, explorar a curiosidade dos jovens e as suas interrogações sobre o amor e sobre o futuro: «Conseguirei arranjar namorado?», «Será que vou ser promovida?», «Quanto durará a minha história de amor?», «Serei aprovado no exame de maturidade?», «Conseguirei tirar a carta de condução?».

Anjinhos e ritos mágicos

Tentemos, agora, folhear alguns números de uma revista para adolescentes muito difundida e representativa. Encontramos dois tipos de horóscopo diferentes: o «clássico» e o «árabe». Este último baseia-se «não nas constelações, mas nas armas brancas que simbolizam a vitalidade, a energia e a capacidade de singrar na vida». Cuidado com esta palavra: «energia». É um termo recorrente nos ambientes esotéricos e New Age.

Além disso, no mesmo número, aparece outro elemento típico New Age: o anjo. «Nasceste entre 23 e 27 de Julho?», lê-se na revista, «o teu anjo é Nithaiah. Tem as asas resplandecentes do sol e é o anjo da harmonia e das regras: ensina-te a calma e refreia o teu ardor excessivo. Com a sua ajuda, não chegarás a arruinar um grande amor, por causa da tua fúria.»

Noutra página encontramos um método original para conhecer o futuro: a linguagem das conchas e das ondas do mar. O artigo começa com o seguinte convite: «Põe em fila algumas conchinhas no ponto em que a água quase não chega, faz uma pergunta e conta cinco ondas. Que sucede?» Se as ondas rebentarem cinco vezes sem tocar nas conchinhas, «a resposta é negativa. Aquilo que desejas ou esperas não acontecerá. Procura modificar alguma coisa no teu comportamento, e volta a tentar o mesmo passados três dias». O artigo continua com os diversos «responsos», que variam segundo o número das ondas que tocam nas conchinhas.

Tudo parece agradável e inocente: o Verão, o sol, a praia, o mar… No entanto, estamos mais uma vez frente a um «rito», em que se interrogam as ondas para conhecer o próprio futuro. Além disso, o artigo propõe que se volte a repetir a prática nos dias seguintes, quando o resultado é negativo. Tudo isso contribui para criar nos jovens uma ritualidade e uma mentalidade esotéricas, na tentativa de encontrar uma resposta para as perguntas sobre o seu próprio destino.

Outra armadilha é a numerologia. Há artigos que convidam a fazer cálculos sobre a própria data de nascimento. O objectivo é obter o «próprio número», ao qual deveria corresponder um certo tipo de temperamento.

Quem tem o 3, por exemplo, é prático e racional. O 5 é o número dos sonhadores, ao passo que o 2 é o dos indecisos. Também este tipo de cálculos tem por base uma mentalidade esotérica, que o semanário Cioè mascara, chamando-lhe «teste psicológico».

 

segue: Os pequenos medos

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