Anterior: A caçadora de vampiros
A atmosfera angustiante é típica de outras séries de televisão emitidos ao longo dos últimos anos. É o caso da série Nikita, por exemplo. Nikita é uma rapariga injustamente condenada à morte por homicídio, que é salva e treinada para fazer parte de um grupo ultra-secreto de agentes antiterrorismo. Também neste caso, a série televisiva é caracterizada por uma atmosfera de angústia e desconfiança. Além disso, voltamos a encontrar o habitual «caldo» de bem que se confunde com o mal.
Os «bons» tornam-se seres cínicos e sem escrúpulos, que utilizam meios lícitos e ilícitos para vencer os terroristas «maus». O único elemento positivo da série é o tormento interior de Nikita, que muitas vezes se revolta contra a crueldade dos seus superiores. Mas isso não basta para salvar a série, que muitas vezes cai na violência gratuita.
A expressão máxima da cultura da desconfiança é representada pela famosa série americana Ficheiros Secretos, inspirada nos fenómenos paranormais e que se tornou muito popular entre os jovens.
A tese da série é que o paranormal corresponde a uma verdade incómoda, e que os governos dos vários países do mundo mantêm ocultos os segredos mais inquietantes sobre os fenómenos do oculto. Essa reserva teria por objectivo, segundo o que se deduz do telefilme, evitar desencadear o pânico entre os cidadãos e conservar o poder.
Partindo desta base, nasce uma longa série de histórias em que os dois agentes do FBI se vêem a braços com fenómenos paranormais de todos os tipos. O espectador de Ficheiros Secretos, portanto, recebe informações detalhadas sobre ovnilogia, reencarnação, espiritismo, satanismo e outros fenómenos do oculto.
O telefilme parece atribuir um valor de seriedade e de verdade a todos estes temas. Além disso, põe os jovens de sobreaviso, convidando-os a desconfiar de tudo e de todos. Não é por acaso que o slogan que acompanha a série é o seguinte: «Não confies em ninguém», sendo também a palavra-chave que o agente Fox Mulder utiliza para ter acesso ao seu computador.
Que consequências pode ter, para os jovens, esta cultura da angústia e da suspeita? O risco é que eles venham a assumir uma atitude de distanciamento e desconfiança frente à vida. Se é impossível confiar seja em quem for, como ensinam os Ficheiros Secretos, em que se pode acreditar?
Esta série apresenta aos jovens a seguinte mensagem: não confies em valor nenhum, pois tudo pode ser falso e truncado. Por detrás de cada amigo pode ocultar-se um inimigo. Assim é fácil chegar ao niilismo, à cultura do «nada».
É verdade que existem poderes que pretendem encobrir as verdades incómodas. A isso estamos habituados nós, que há anos esperamos por uma resposta para certas carnificinas, sem nunca chegar a obtê-la. Mas também é verdade que a cultura do complot e da suspeita não ajuda a assumir uma atitude positiva frente à vida.
Por essa razão, os Ficheiros Secretos são uma série esotérica, que não tem contribuído, certamente, para transmitir esperança nem optimismo às novas gerações.
Carlo Climati
Os jovens e o esoterismo
Lisboa, Paulinas, 2001
Excertos adaptados