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Violência e esoterismo, no cinema de Dario Argento, são acompanhados por outro elemento negativo: a desconfiança face ao valor da família, que o realizador transmite aos jovens. Muitos dos seus filmes são portadores desta mensagem, radicalmente pessimista, que Dario Argento sintetizou assim, durante uma participação no programa de televisão «Il Laureato»: «A família pode ser um centro de grande violência, mesmo quando é abastada. Em qualquer dos casos, é sempre um centro de prepotência sobre os filhos. É bastante alucinante. Uma vez, no Mónaco, falei com outro realizador que me disse que fazia os seus filmes com o intuito de desmembrar as famílias, era essa a sua missão. Pensei que estivesse a brincar. Mais tarde, porém, quando os vi, percebi que estava a falar verdade. Não é que eu faça os meus filmes para desmembrar as famílias, no entanto, sei que as famílias encerram o máximo de prepotência que se pode exercer sobre o indivíduo. Se um adulto tem problemas, ou é doente, é porque os pais o espancaram ou violentaram, ou então porque viu outras coisas horríveis.»
Esta visão pessimista, que parece não deixar lugar à esperança, transparece de muitos filmes de Dario Argento. Quattro mosche di velluto grigio, por exemplo, é uma história contra o matrimónio. Transmite ao espectador uma triste cultura da desconfiança, segundo a qual um marido nunca pode confiar plenamente na mulher (e vice-versa). Com efeito, no fim do filme, a protagonista feminina revela-se como assassina.
A propósito de Quattro mosche di velluto grigio, Dario Argento fez a seguinte declaração: «Com este filme, eu queria contar a história de um casal, marido e mulher, que vivem debaixo do mesmo tecto mas que não sabem nada acerca de um e de outro. Cada um pode ter segredos terríveis e inconfessáveis» [1].
Noutra entrevista, o realizador acrescentou: «Eu queria contar como nunca é possível conhecer verdadeiramente os outros. É impossível conhecê-los por dentro. Os protagonistas do filme casaram e amavam-se, mas ele nunca entendeu nada acerca dela, não sabe nada acerca da sua pessoa. Isto pode acontecer a muita gente. Tu julgas que conheces as pessoas, mas depois, mesmo passados dez anos, descobres que têm uma personalidade completamente diferente, que até esse momento tinha permanecido oculta »[2].
Em suma, Dario Argento propõe aos jovens uma mensagem clara de desconfiança face à família. Não é por acaso que muitas personagens dos seus filmes reflectem este sentimento de pessimismo. Em Profondo Rosso, uma criança assiste ao homicídio do pai, cometido pela mãe. Em Quattro mosche di velluto grigio, uma filha está obcecada pelo pai, que teria gostado que ela fosse rapaz. Em Il gatto a nove code , um homem sente atracção sexual pela sua filha adoptiva. Em Opera, uma rapariga descobre que a mãe fazia jogos sadomasoquistas com o seu amante. Finalmente, em Phenomena, as jovens estudantes de um colégio têm situações familiares desastrosas. São filhas de pais separados, e vivem num estado de abandono e de desespero.
Ainda mais esmagadores são os minifilmes da série Gli incubi di Dario Argento, que este realizou em 1987, para serem transmitidos em Giallo, na televisão italiana. Um deles, La strega , volta a apresentar, de forma horripilante, o tema da desconfiança frente à família. É a história de uma menina que está a festejar o seu aniversário com os amigos. O pai envolve-a num jogo macabro: faz passar pelas mãos da filha e das outras crianças os pedaços do cadáver da mulher, que ele próprio acabara de matar por ciúmes [3].
Dario Argento também deu vida a uma série de banda desenhada, em que aparecem vários elementos esotéricos. Num álbum «especial» de Julho de 1991, por exemplo, encontramos uma história contendo uma longa sequência de imagens em que a protagonista tem uma relação sexual com o demónio.
«Profondo Rosso» também é o nome de duas lojas que Dario Argento abriu em Roma e em Milão. O realizador chama-lhes, por brincadeira, «as pequenas lojas do terror». São especializadas na venda de livros, cassetes de vídeo, bonecos, minimodelos e outros tipos de material ligado ao mundo do terror e do esoterismo. Na montra, dois cartazes irónicos, anunciam: «Ratos frescos» e «Escaravelhos do dia».
O maior número de clientes destas lojas pertence à faixa etária situada entre os dezasseis e os vinte e quatro anos. Dario Argento manifestou a intenção de transformar as suas «pequenas lojas do terror» em «verdadeiros centros culturais, pontos de encontro para os jovens e para todos os apaixonados pelo sector» [4].
[1] F. MAIELLO, lntervista a Dario Argento, p. 19.
[2] A. TENTORI, Dario Argento. Sensualilà nell’omicidio, Edizioni Falsopiano, Alexandria, 1997, pp. 15-16.
[3] A. TENTORI, Dario Argento. Sensualità nell’omicidio , pp. 142-143.
[4] I negozi di Dario Argento. Una visita a Profondo Rosso, in Speciale Profondo Rosso, Julho, 1991.
Carlo Climati
Os jovens e o esoterismo
Lisboa, Paulinas, 2001
Excertos adaptados