O lado oculto da diversão

Setembro 18, 2007

O «rito» das discotecas IV – Um documento importante

Arquivado em: divertimentos, infradimensão, juventude, loucura, sociedade, sombra — diversaoj @ 10:56 pm

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Algumas reflexões úteis sobre temas que até agora referimos foram propostas, em 1996, por um documento dos bispos de Emilia Romagna, região italiana com o mais alto número de discotecas. O texto, que continua a ser actualíssimo, aborda com inteligência e espírito construtivo a complexa realidade do mundo juvenil, oferecendo óptimas sugestões sobre como enfrentar os vários problemas associados ao mundo dos locais de dança.

«A nossa sociedade parece não ter lugar para os jovens», lemos no documento, «sobretudo para as suas interrogações de fundo. Dificuldades ocupacionais, prolongamento por um tempo indeterminado da situação de formação e de dependência, relutância em lhes atribuir responsabilidades ou incumbências significativas, relegam para o futuro o momento da sua inserção social.

Sentem-se contagiados por uma necessidade de bem-estar. Têm tudo o que é necessário para viver, e ainda mais do que isso. Assim, não têm de lutar para suprir certas necessidades de tipo primário (alimentação, vestuário, casa, um certo nível de segurança…). A sua atenção volta‑se, portanto, para a satisfação de certas exigências menos inadiáveis, mais supérfluas e opcionais (consumos diversos, imagem, diversão…), o que em nada contribui para a formação de personalidades fortes…

Grande parte da comunicação passa pelos mass media, em que a comunicação é unidireccional. Além disso, é de tipo cativante, persuasivo e superficial: a forma prevalece sobre o conteúdo. As gerações jovens estão acostumadas a este tipo de comunicação, e cada vez sentem mais dificuldade em comunicar fora destes canais ou modalidades. Isso rouba espaço e tempo à comunicação interpessoal, sobretudo entre gerações…

A música juvenil e a discoteca parecem então capazes de oferecer uma resposta a muitas dessas necessidades. Comunicação através dos mass media, cultura do corpo, música, lugares de encontro entre jovens com os mesmos gostos e objectivos, busca do comportamento disparatado, auto-afirmação através da dança, do look, da sedução e do êxito são algumas das respostas que a discoteca oferece. Trata-se, como é evidente, de respostas de tipo contingente, limitado, consumista e irracional. Contudo, parecem “funcionar”, pelo menos no momento imediato.

Grandes são os riscos que podem introduzir-se através de uma visão deste género: perda do sentido dos limites, evasão das obrigações associadas ao próprio crescimento, evasão dos deveres sociais, favorecendo mais os impulsos egoístas do que os altruístas, embora não se excluam certas formas de dedicação ou de altruísmo, no próprio ambiente de discoteca».(…)

 

 

 

Carlo Climati
Os jovens e o esoterismo
Lisboa, Paulinas, 2001
Excertos adaptados

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