Carlo Climati
Os jovens e o esoterismo
Lisboa, Paulinas, 2001
Excertos adaptados
O mundo do cinema sempre exerceu uma profunda influência sobre os jovens. Desde a sua criação, o grande ecrã sempre criou mitos e superestrelas inesquecíveis, lançando modas e novas correntes de pensamento.
De há vários anos a esta parte, com o aparecimento dos vídeos, o poder de comunicação dos filmes tornou-se ainda maior. Além das projecções tradicionais, tem-se vindo a desenvolver cada vez mais o fenómeno do cinema «dentro de casa». Surgiram grandes cadeias de lojas que permitem o aluguer ou a compra de cassetes de vídeo de todos os tipos. Assim, também o cinema se tornou objecto de colecção.
O esoterismo sempre foi um tema querido do mundo do cinema. Há uma longa e antiga tradição de filmes de «terror», que falam de bruxas, demónios, fantasmas, vampiros e outros assuntos semelhantes. Contudo, há que sublinhar um elemento importante da evolução deste filão, que representa um sinal dos tempos em que vivemos.
O cinema esotérico tem-se vindo a tornar cada vez mais monstruoso. Elementos tradicionais, como o mistério, o espiritismo e a bruxaria associam-se a repugnantes cenas de violência e de sangue. Os protagonistas dos filmes, além de estarem ligados ao mundo do oculto, cometem muitas vezes homicídios terríveis. Perseguem as suas vítimas, acabando por torturá-las e matá-las com grande brutalidade.
O mais surpreendente é que certas imagens sanguinárias parecem ser apreciadas pelos jovens. Em vez de sentirem repugnância, muitos jovens apaixonam-se pela representação de torturas e homicídios. A visão de sangue não os perturba, pelo contrário, exerce sobre eles uma certa atracção.
Até já existem sites na Internet que elaboram filmes de morte «por encomenda». Os jovens podem enviar a sua história via e-mail e pedir que lhes encenem determinado tipo de homicídio, mais ou menos violento e sanguinário. Receberão a cassete de vídeo em casa, a troco de poucos dólares.
Como é óbvio, os protagonistas de tais filmes não morrem de verdade, mas as imagens não deixam de ser inquietantes, sobretudo se pensarmos que eles são encomendados por jovens. Tudo isto é sinal de uma perigosa inversão cultural, verdadeira metáfora da nossa época. Vivemos cada vez mais num mundo «ao contrário», em que a morte e a violência, em vez de meter medo aos jovens, se tornam elementos de atracção para eles.
Um dos símbolos do satanismo é a cruz invertida, que simboliza a ideia de um mundo anticristão, em que os valores estão subvertidos. O cinema esotérico, nos últimos anos, tem-se deslocado nessa mesma direcção. Inverteu o senso comum do bom gosto, propondo o culto da violência e do sangue. Entre outras coisas, a presença exagerada de cenas sangrentas no cinema de hoje também demonstra uma grande pobreza de ideias. Não obstante, muitos jovens sentem‑se atraídos pelo filão de «terror» americano, que mistura o esoterismo com cenas horripilantes. Além dos filmes normais projectados no grande ecrã, existe um grande número de cassetes de vídeo que os jovens podem comprar ou alugar.
Entre os filmes sangrentos dos últimos anos, o mais famoso é certamente Nightmare (Pesadelo), do realizador Wes Craven, tendo por protagonista o assassino monstruoso Freddy Krueger. Conta a história de um maníaco que se manifesta através dos pesadelos dos jovens, dilacerando os corpos destes com a sua mão em forma de garra. Nightmare alcançou um êxito tão grande que, após o primeiro filme, foram produzidos mais seis, além de uma série televisiva.
O aspecto mais inquietante de tais películas é que o mal nunca é vencido de forma definitiva, voltando sempre à superfície no fim de cada história. O monstro Freddy Krueger acaba por ser morto em cada filme, mas depois ressuscita, mostrando-se sempre pronto a matar outras pessoas. A mensagem deixada aos jovens pela série é profundamente pessimista, levando-os a crer que o mal não pode ser vencido de uma vez por todas.
Eis um conceito radicalmente anticristão. A ideia da «ressurreição» contínua do assassino Freddy Krueger (e, portanto, do mal) parece querer ocupar o lugar da única e verdadeira ressurreição, a ressurreição anunciada por Jesus. Parece querer representar a vitória do pessimismo sobre o optimismo do Evangelho.
Infelizmente, o tema do mal que regressa sempre está presente em muitos outros filmes sanguinários. Na série Scream (O Grito) é novamente apresentado o tema do assassino misterioso que mata sem piedade.
As vítimas preferidas destes assassinos monstruosos são muitas vezes jovens. Noutras séries mata de forma brutal, escondendo a identidade de diversas formas, por exemplo, por detrás de máscaras. Em muitos casos o êxito do primeiro filme é tão grande que inspira outros, igualmente violentos e sanguinários.
O público quase parece afeiçoar-se, de forma mórbida, a estes implacáveis assassinos cinematográficos, que voltam sempre a ressuscitar e a atacar outras pessoas. Os jovens não se contentam em vê-los num único filme. Desejam que eles voltem a matar, de forma original e diferente, e os produtores, interessados em ganhar dinheiro, satisfazem o seu desejo, fazendo centenas de películas de teor macabro e violento. Mais uma vez, quem decide é o «deus dinheiro».
Não faltam exemplos deste tipo de filmes de terror, todos eles grandes sucessos de bilheteira.
segue: Os filmes de Dario Argento